Dia Mundial da Alimentação: transgênicos não são a solução para a fome do mundo

Notícia - 13 - out - 2005
Estudos da FAO e de órgãos dos EUA demonstram que o problema da fome mundial está relacionada à má distribuição de alimentos e concentração de renda e não com a escassez de produtos

No Dia Mundial da Alimentação, comemorado em 16 de outubro, o debate sobre as soluções para o problema da fome fica mais acirrado. Muitas empresas de transgenia, como a Monsanto e a Novartis afirmam que os alimentos geneticamente modificados têm potencial para aumentar a produtividade de alimentos no mundo e com isso erradicar a fome no planeta. No entanto, depois de dez anos do cultivo de transgênicos no mundo, a experiência mostra que o que está acontecendo é exatamente o contrário. As produções transgênicas perdem produtividade depois de alguns anos e não combatem as principais causas da fome no mundo: a má distribuição de renda e alimentos.

O Brasil é hoje um dos maiores produtores de alimento no mundo, entrando na lista dos maiores exportadores, produzindo 51 milhões de toneladas de soja em 2005. 71% dessa produção é exportada na forma de grão, óleos, farelos e carnes de ave e suína. No entanto 13,7 milhões de pessoas passam fome e outras 40 milhões têm uma alimentação insuficiente, segundo dados do IBGE. "Não podemos culpar os engenheiros agrônomos pela fome do mundo", diz Ventura Barbeiro, agrônomo da Campanha de Engenharia Genética do Greenpeace. "Os culpados são aqueles que geram concentração de poder e riqueza".

Esse quadro mostra que a fome não é resultado de uma produção agrícola insuficiente e sim um grave problema socioeconômico. "Muitos dos temas polêmicos discutidos pelas sociedades são carregados de verdades e mitos. Os transgênicos não fogem à regra. O maior mito neste caso é o de que os transgênicos são a solução para a fome no mundo", disse Gabriela Couto, bióloga da Campanha de Engenharia Genética do Greenpeace. "O problema da fome não é a falta de tecnologia apropriada para produção de alimento, e sim a distribuição de renda e de alimento entre a população mundial".

Pesquisas recentes indicam que o cultivo transgênico mais difundido no mundo, a soja RR (Resistente ao Roundup®), demanda uma grande quantidade de agrotóxicos a partir do quarto ano de plantio e tem produtividade pelo menos 3% a 5% inferior às variedades convencionais.

O órgão de pesquisa das cooperativas gaúchas, a Fundacep, mostrou que a soja transgênica produz 13% menos que a convencional. Nos EUA, um levantamento do USDA (departamento de agricultura dos EUA) provou que a soja transgênica RR produz entre 5% e 11% menos que suas correspondentes convencionais. Um estudo de três anos feito pela Universidade de Ottawa, no Canadá, comparou o milho transgênico inseticida (Bts) com as sementes híbridas usadas no país e verificou que esses híbridos produziram quantidades iguais ou até 12% inferiores a seus equivalentes convencionais.

Além disso, os produtos transgênicos são criados em laboratório para favorecer a produção em larga escala. São os grandes proprietários, que detém tecnologias, que podem pagar royalties às grandes multinacionais detentoras da patente e que plantam para exportação. Isso favorece o processo de concentração de terras, expulsão de pequenos produtores e aumento da população sem terra e sem alimento.

Por isso, não é preciso ser ambientalista para acreditar que os transgênicos não vão acabar com a fome do mundo. Além de promover uma brutal concentração de renda e dificultar ainda mais o acesso das populações pobres à comida, os produtos geneticamente modificados aumentam o uso de agrotóxicos e podem causar riscos à biodiversidade do planeta, ocasionando danos ainda não previstos pela ciência, com conseqüências dramáticas para o futuro do planeta.